Caso Gerson na jaula da leoa: o que a Psiquiatria explica sobre o episódio
- drosieldosreis
- 3 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 5 de dez. de 2025

O Brasil amanheceu chocado com a morte de Gerson de Melo Machado, 19 anos, atacado por uma leoa após invadir o recinto do animal no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa, em 30/11/2025.Mais do que um caso isolado, o episódio expõe um problema grave: a falta de diagnóstico, tratamento continuado e suporte social para pessoas com transtornos psiquiátricos graves, como a esquizofrenia.
Nos vídeos divulgados, Gerson escala estruturas, atravessa barreiras, desce por uma árvore e se aproxima do animal sem demonstrar medo — um padrão de comportamento típico de quadros psicóticos com prejuízo no julgamento da realidade.
O que se sabe sobre o caso até agora
Relatos de assistentes sociais e do Conselho Tutelar revelam que Gerson era acompanhado por serviços públicos desde a infância. Havia histórico familiar de esquizofrenia grave: sua mãe, segundo testemunhos, apresentava desorganização intensa, episódios psicóticos e incapacidade funcional, o que levou à perda da guarda dos filhos.
Um laudo psiquiátrico de 2023 descrevia em Gerson:
Comportamento disjuntivo,
Labilidade afetiva,
Oscilação de humor,
Impulsividade,
Episódios de desorganização psicótica.
Apesar disso, a rede de proteção relatou que, em diversos momentos, ele foi tratado como alguém com “problemas comportamentais” — interpretação equivocada e bastante comum em pacientes com transtornos graves.
Sinais claros de psicose no comportamento registrado
O vídeo da invasão à jaula evidencia características típicas de estados psicóticos:
1. Falta de percepção de risco (agnosia do perigo)
Gerson se aproxima da leoa como se fosse possível interagir com ela, comportamento semelhante a pacientes que atravessam vias movimentadas ou se aproximam de janelas altas.
2. Impulsividade e desorganização
Subir estruturas, ignorar barreiras, fazer movimentos desordenados e gesticular para o animal são indícios de possível desorganização cognitiva.
3. Ideias delirantes ou fantasia rígida
Amigos e familiares afirmam que ele dizia querer “domar leões” desde criança. Em quadros psicóticos, fantasias podem assumir caráter de verdade absoluta.
4. Ausência de medo
Pacientes com esquizofrenia em fase ativa podem perder respostas emocionais adaptativas — como medo de predadores.
A esquizofrenia explicada de forma clara e atualizada
A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico grave caracterizado por:
Sintomas positivos (acréscimos à realidade)
Delírios
Alucinações
Pensamento desorganizado
Comportamento bizarro
Sintomas negativos (perdas de função)
Falta de iniciativa
Afeto reduzido
Pobreza de discurso
Retraimento social
Sintomas cognitivos
Déficits de atenção
Memória prejudicada
Julgamento comprometido
Em quadros não tratados, todos esses grupos podem se misturar e resultar em comportamentos de risco extremo, como o observado no caso.
Sinais de alerta que exigem atenção imediata
Um paciente pode estar entrando em crise quando apresenta:
discurso desconexo
desorganização comportamental
agitação sem motivo aparente
impulsividade incomum
falas sobre “missões”, “sinais”, “vozes”
desprezo total pelo perigo
desaparecimento repentino
isolamento extremo
Esses sinais devem motivar busca imediata de atendimento psiquiátrico e, dependendo da gravidade, internação involuntária — amparada pela Lei 10.216/2001.
O que falhou? Reflexões importantes sobre saúde mental no Brasil
O caso de Gerson evidencia desafios que muitas famílias enfrentam:
1. Subdiagnóstico e laudos contraditórios
É comum que pacientes oscilem entre serviços e recebam avaliações divergentes, dificultando intervenções eficazes.
2. Baixa adesão ao tratamento
Pacientes com esquizofrenia muitas vezes não reconhecem a própria doença, o que gera abandono de consultas e medicação.
3. Falha na rede de apoio social
A saída precoce de instituições, falta de acompanhamento longitudinal e ausência de responsáveis dificultam seguimento.
4. Criminalização da doença mental
Muitos pacientes são rotulados como “problemáticos”, “indisciplinados” ou “criminosos”, quando na verdade precisam de atendimento especializado.
Como evitar novas tragédias: orientações práticas
1. Diagnóstico precoce salva vidas
Quanto antes o tratamento é iniciado, menores os riscos de crises graves.
2. Acompanhamento contínuo é essencial
Esquizofrenia é uma condição crônica — exige seguimento regular, mesmo quando o paciente parece bem.
3. Familiares e cuidadores devem receber orientação
O manejo adequado reduz recaídas e evita comportamentos de risco.
4. Medicações antipsicóticas são fundamentais
Tratamentos modernos aumentam adesão e diminuem hospitalizações.
5. Em caso de risco, a internação pode ser necessária
A legislação brasileira permite internação involuntária quando há ameaça à vida própria ou de terceiros.
Conclusão
O caso de Gerson não é apenas uma tragédia isolada. Ele expõe um problema estrutural no cuidado em saúde mental: a mistura entre abandono social, diagnóstico tardio e falta de continuidade no tratamento.
Episódios como esse são evitáveis. A informação correta, o tratamento adequado e o reconhecimento precoce dos sinais de psicose podem mudar destinos — e salvar vidas.
Se você conhece alguém que apresenta sintomas parecidos ou comportamentos de risco, não ignore. Procure um psiquiatra ou serviço de emergência imediatamente.
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