Saúde mental masculina: por que os homens demoram a pedir ajuda
Novembro Azul costuma lembrar o exame de próstata. É um bom lembrete, mas a saúde do homem é maior do que isso. Ela inclui o sono, a energia, os relacionamentos e a forma de lidar com pressão, perdas e frustrações. Ou seja: inclui a saúde mental.
Muitos homens cresceram ouvindo que precisam dar conta de tudo sozinhos. Isso tem um custo. O sofrimento emocional continua lá, só que aparece de outro jeito e costuma chegar tarde ao consultório. Neste artigo, você vai entender por que isso acontece, quais sinais merecem atenção e como dar o primeiro passo, por você ou por alguém próximo.
O que os números mostram
Os dados ajudam a enxergar o tamanho da questão e também o que costuma ficar escondido.
Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, feita pelo IBGE com o Ministério da Saúde, 6,0% dos homens e 15,4% das mulheres tiveram resultado compatível com depressão maior em um questionário de rastreio (PHQ-9). Entre todas as pessoas com rastreio positivo, só 37% disseram já ter recebido o diagnóstico em algum momento da vida.
A Organização Mundial da Saúde estima que a depressão seja cerca de 1,5 vez mais comum em mulheres do que em homens.
Um estudo publicado em 2013 na revista JAMA Psychiatry sugere que parte dessa diferença está em como se pergunta. Quando a avaliação incluiu sinais mais frequentes nos homens, como crises de raiva, agressividade, uso de álcool ou drogas e comportamento de risco, a proporção de homens e de mulheres com depressão ficou parecida (30,6% e 33,3%).
Os homens também respondem pela maior parte das mortes por suicídio no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, em 2021 foram 12.072 óbitos de homens e 3.431 de mulheres, cerca de 3,5 vezes mais.
Esses números não servem para assustar. Eles mostram que muitos homens sofrem sem dar nome ao que sentem e sem receber cuidado, e que isso pode mudar. A depressão e outros quadros de saúde mental têm tratamento, e o primeiro passo é conversar sobre o assunto.
Se você está pensando em tirar a própria vida, procure ajuda agora: CVV, ligue 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br; SAMU, ligue 192; ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
Por que os homens demoram a pedir ajuda
A ideia de que é preciso aguentar firme
Desde cedo, muitos meninos aprendem que chorar, ter medo ou pedir ajuda é sinal de fraqueza. Na vida adulta, isso vira a cobrança de ser forte o tempo todo, prover, resolver e não dar trabalho a ninguém. Com essa régua, admitir que não está bem parece um fracasso, e o sofrimento é empurrado para depois.
Sintomas que não parecem tristeza
Nem toda depressão aparece como choro ou tristeza visível. Em muitos homens, ela se mostra como irritação, impaciência, cansaço, excesso de trabalho, mais álcool ou isolamento. Como esses sinais não combinam com a imagem mais comum da depressão, o próprio homem e as pessoas ao redor demoram a ligar os pontos.
Dificuldade de dar nome ao que sente
Muitos homens tiveram pouco espaço para falar de emoções. Quando faltam palavras, o sofrimento aparece como estresse, cansaço ou mau humor. Conseguir dizer, mesmo de forma simples, “estou triste”, “estou com medo” ou “estou sobrecarregado” já é um primeiro passo para entender o que está acontecendo e para pedir ajuda.
Medo do rótulo e do impacto no trabalho
Existe o receio de ser visto como fraco no trabalho, de perder espaço ou de que um diagnóstico vire um rótulo. Vale lembrar que a consulta médica é protegida por sigilo e que cuidar da saúde mental faz parte de cuidar do trabalho, da família e das relações.
Pouco contato com consultas de rotina
Em geral, os homens procuram menos os serviços de saúde para prevenção e chegam mais tarde, quando o problema já pesa. Foi por isso que o Ministério da Saúde criou, em 2009, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. A lógica vale também para a saúde mental: quanto antes a conversa acontece, mais cedo é possível organizar o cuidado.
Sinais que merecem atenção
Nenhum sinal isolado fecha um diagnóstico. O que chama atenção é a combinação de sinais, a duração (por exemplo, duas semanas ou mais) e o quanto isso atrapalha a vida. Observe se você ou alguém próximo tem apresentado:
irritação constante, pavio curto ou explosões de raiva fora do habitual;
isolamento: menos vontade de ver amigos e família ou de fazer o que antes dava prazer;
mais álcool, outras substâncias ou apostas como forma de desligar;
trabalho em excesso para não pensar ou, ao contrário, queda de rendimento e dificuldade de concentração;
comportamentos de risco, como dirigir de forma imprudente;
sono ruim, cansaço que não passa e falta de energia;
dores no corpo sem causa clara, como dor de cabeça, de estômago ou nas costas;
queda do desejo sexual;
sensação de vazio ou de desesperança, ou falas como “tanto faz” e “seria melhor sumir”.
Esgotamento e depressão podem se parecer. Para entender a diferença, leia também Burnout ou depressão? Como diferenciar os dois. Se o sono é o que mais incomoda, o artigo Sono e insônia: como dormir melhor traz orientações práticas. E se a preocupação constante é o que pesa, veja Ansiedade: quando se preocupar e como tratar.
Álcool: o alívio que cobra a conta depois
Para muitos homens, a bebida vira a forma socialmente aceita de aliviar a tensão do dia. No curto prazo, ela parece funcionar: relaxa, desliga, ajuda a pegar no sono. Mas o álcool é um depressor do sistema nervoso central. Com o uso frequente, ele piora a qualidade do sono, aumenta a irritabilidade e a impulsividade e pode agravar a ansiedade e a depressão no dia seguinte.
Forma-se um ciclo: o sofrimento leva à bebida, a bebida piora o sofrimento, e o problema de fundo continua sem cuidado. Se você percebe que precisa beber para relaxar, dormir ou enfrentar situações sociais, esse é um sinal importante para conversar com um médico, sem culpa e sem julgamento.
Quando procurar uma avaliação
Vale marcar uma consulta quando:
os sinais acima duram mais de duas semanas;
eles afetam o trabalho, a família, os relacionamentos ou o sono;
o álcool ou outra substância virou a principal forma de lidar com o estresse;
pessoas próximas comentam que você não parece o mesmo;
você sente que está apenas sobrevivendo aos dias.
Procure ajuda imediata se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida: ligue para o CVV (188) ou o SAMU (192), ou vá ao pronto-socorro mais próximo. Você não precisa passar por isso sozinho.
Como é uma consulta em saúde mental
Muitos homens adiam a consulta por não saber o que esperar. Em geral, ela é uma conversa organizada e sem julgamento sobre como você está:
o que mudou, desde quando e como isso afeta o dia a dia;
sono, alimentação, uso de álcool e de outras substâncias, trabalho e relações;
histórico de saúde, medicamentos em uso e, quando necessário, exames;
um plano de cuidado combinado com você, que pode incluir psicoterapia, ajustes de rotina e, quando indicado, medicação.
Tudo o que é dito na consulta é protegido por sigilo médico. E pedir ajuda não tira a sua autonomia: é você quem decide, com informação, os próximos passos.
O que ajuda no dia a dia
Alguns cuidados simples fazem parte da saúde mental de qualquer pessoa. Eles não substituem uma avaliação quando os sinais persistem, mas ajudam a criar uma base mais estável:
sono regular: horários parecidos para deitar e acordar, inclusive no fim de semana;
movimento: atividade física que caiba na sua rotina, de preferência com alguém;
menos álcool: observe quanto e por que você está bebendo;
conversa: escolha uma pessoa de confiança para falar do que pesa, não só de futebol e trabalho;
pausas reais: momentos sem tela e sem cobrança, mesmo que curtos;
atenção aos sinais: se você notar que algo mudou e não volta ao normal, procure uma avaliação.
Como apoiar um homem próximo
Se você convive com alguém que parece diferente, a forma de abordar faz diferença:
escolha um momento tranquilo e fale do que tem observado, sem acusar: “tenho te achado mais cansado e irritado, está tudo bem?”;
ouça mais do que aconselha e não minimize (“é só uma fase”) nem compare;
ofereça ajuda prática, como pesquisar um profissional ou ir junto na primeira consulta;
se ele falar em morte ou em sumir, leve a sério: fique por perto e busque ajuda imediata (CVV 188, SAMU 192).
Saúde do homem também é saúde mental
Cuidar da cabeça faz parte do mesmo cuidado que leva ao check-up, ao exame de próstata e à pressão medida em dia. Conversar sobre o que se sente não é fraqueza. É uma forma de cuidar de si e de quem está por perto.
Neste Novembro Azul, inclua a saúde mental na sua lista de cuidados.
Quer conversar sobre isso com um médico? O Dr. Osiel Schott (CRM-SC 29730) atende adultos em saúde mental, presencialmente em Joinville/SC e online para todo o Brasil. Veja como funciona a consulta ou agende pelo WhatsApp.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta médica.
Referências
Organização Mundial da Saúde. Depression (fact sheet). Genebra: OMS.
Sousa NFS, Barros MBA, Medina LPB, Malta DC, Szwarcwald CL. Associação do transtorno depressivo maior com doenças crônicas e multimorbidade em adultos brasileiros, estratificada por sexo: Pesquisa Nacional de Saúde 2019. Revista Brasileira de Epidemiologia. 2021;24(supl. 2):e210015.
Martin LA, Neighbors HW, Griffith DM. The experience of symptoms of depression in men vs women: analysis of the National Comorbidity Survey Replication. JAMA Psychiatry. 2013;70(10):1100-1106.
Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 4, 2024. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021.
Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (Portaria GM/MS nº 1.944/2009).
Dr. Osiel Schott · Médico · CRM-SC 29730 · Joinville/SC



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