Zolpidem: por que tanta gente usa?
- drosieldosreis
- 16 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

O zolpidem (Stilnox e genéricos) virou um dos “remédios do sono” mais conhecidos porque costuma agir rápido e dá a sensação de “desligar” a mente. Só que esse mesmo “desligar” pode ter custos: apagões de memória, sonolência no dia seguinte, tolerância, dependência e um risco raro — porém grave — que todo mundo deveria conhecer: comportamentos complexos do sono (como levantar, comer, mandar mensagens — e até dirigir dormindo).
Se você já ouviu histórias do tipo “tomei e acordei com coisas feitas que não lembro”, isso não é lenda urbana: é um risco descrito em alertas regulatórios e bula.
O que é zolpidem (e como age no cérebro)?
O zolpidem é um sedativo-hipnótico do grupo das “Z-drugs”, usado para insônia. De forma simplificada, ele reduz a atividade cerebral e facilita o início do sono.
Quando um tratamento farmacológico é indicado, a diretriz da American Academy of Sleep Medicine (AASM) cita o zolpidem como uma opção “sugerida” (recomendação fraca) para insônia de início e manutenção — ou seja, pode ajudar, mas não é “cura” do problema.
Benefícios reais (sem promessas mágicas)
Na prática, o zolpidem tende a:
reduzir o tempo para pegar no sono (insônia de início);
em algumas pessoas, diminuir despertares (insônia de manutenção).
Mas o ponto importante é: para muita gente ele vira uma muleta (alívio rápido) — e não a solução definitiva da insônia.
O alerta mais sério: “comportamentos complexos do sono”
Este é o tópico que mais merece destaque.
A FDA (EUA) exigiu Boxed Warning (o alerta mais forte) para zolpidem e outras Z-drugs por relatos de lesões graves e mortes associados a comportamentos durante o sono, como:
sonambulismo,
sleep driving (dirigir dormindo),
preparar/comer alimentos,
telefonar,
sexo durante o sono,com amnésia depois.
E isso pode acontecer com dose usual e até após uma única dose, não só em uso prolongado.
Regra de segurança: se ocorrer qualquer episódio desse tipo, a orientação regulatória é interromper e procurar o prescritor imediatamente.
“Ressaca” no dia seguinte: por que pode ser perigoso
Mesmo quando a pessoa “acha que está bem”, pode haver prejuízo de alerta na manhã seguinte, com risco em atividades como dirigir, operar máquinas e tomar decisões importantes. A FDA também já ajustou recomendações de dose por risco de “impairment” matinal.
Efeitos colaterais: os comuns e os que preocupam
Mais comuns:
sonolência, tontura, lentidão;
confusão;
amnésia anterógrada (“apagão” do que aconteceu após tomar).
Mais preocupantes:
comportamentos complexos do sono (acima);
quedas e acidentes;
reações paradoxais (agitação/irritabilidade, raramente).
Idosos: em geral, Z-drugs estão associadas a aumento de risco de quedas/fraturas/lesões em idosos (e são tratadas com muita cautela em critérios geriátricos).
Tolerância e dependência: quando o “só hoje” vira rotina
Com o tempo, pode ocorrer tolerância (perda de efeito) e aumento de risco de uso problemático/dependência, especialmente com maior dose e uso prolongado.
Esse é um motivo central para evitar “uso automático” noite após noite.
Mudança importante no Brasil: zolpidem agora exige receita azul
No Brasil, a Anvisa determinou que medicamentos com zolpidem passam a exigir Notificação de Receita B (azul), independentemente da concentração.
Isso reflete preocupação com risco de abuso e dependência e reforça a necessidade de reavaliação clínica, especialmente quando o uso vai além do curto prazo.
Combinações que aumentam muito o risco
O risco sobe bastante quando há:
álcool (mesmo “pouco”);
outros depressores do SNC (ex.: benzodiazepínicos, opioides, anti-histamínicos sedativos).
Zolpidem trata a insônia… ou só apaga o sintoma?
Aqui está a virada de chave: para insônia crônica, as principais diretrizes colocam a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (CBT-I/TCC-I) como tratamento inicial e com benefício mais duradouro.
A CBT-I trabalha o que mantém a insônia: hábitos, horário, hiperalerta, associação cama-vigília, ansiedade antecipatória, etc. (ex.: controle de estímulos e restrição do sono, entre outras técnicas).
Checklist de uso mais seguro (se for indicado pelo seu médico)
Tome apenas se puder dormir tempo suficiente antes de precisar estar alerta.
Evite álcool e sedativos no mesmo dia.
Use a menor dose eficaz e por tempo curto, com reavaliação.
Se ocorrer “ações dormindo”/amnésia importante, trate como sinal de alerta e procure orientação médica.
Quando procurar ajuda com prioridade
Procure avaliação se houver:
necessidade de zolpidem quase toda noite;
aumento progressivo de dose (“não faz mais efeito”);
apagões, quedas, confusão;
sonambulismo/ações complexas;
mistura com álcool/sedativos;
piora importante do humor/ansiedade.
FAQ rápido
Zolpidem vicia?
Pode haver tolerância e dependência, principalmente com uso prolongado.
Zolpidem dá apagão?
Pode causar amnésia do que aconteceu após tomar, especialmente se você não deitar logo ou combinar com álcool/sedativos.
Qual a melhor alternativa para insônia crônica?
Em geral, CBT-I/TCC-I é a abordagem com melhor sustentação de benefício.
Aviso: conteúdo educativo, não substitui consulta. Não ajuste ou interrompa medicações por conta própria.
Dr. Osiel dos Reis Schott
Médico CRM-SC 29730
Atendimento presencial em Joinville e online para todo o Brasil.



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